‘Ouvi que estava viciada em opioides’: mulheres têm dor subestimada em hospitais e recebem menos tratamento que homens, mostra estudo
Luciana Dores Arquivo Pessoal A forma como a medicina escuta —e interpreta— a dor não é igual para homens e mulheres. Uma revisão integrativa publicada e...
Luciana Dores Arquivo Pessoal A forma como a medicina escuta —e interpreta— a dor não é igual para homens e mulheres. Uma revisão integrativa publicada em 2025 na revista Medicina analisou estudos clínicos sobre manejo da dor em diferentes contextos e identificou um padrão consistente: mulheres têm maior probabilidade de ter a dor subestimada, receber menos analgesia e ter seus sintomas atribuídos a fatores emocionais, mesmo quando relatam intensidade igual ou superior à dos homens. O fenômeno aparece em múltiplos cenários —da emergência ao pós-operatório e a procedimentos ginecológicos— e não se explica apenas por diferenças biológicas. Segundo os autores, vieses implícitos, lacunas em protocolos clínicos e estereótipos históricos ajudam a sustentar decisões que, na prática, resultam em tratamento desigual. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Dor que precisa ser provada Luciana Dores teve sua dor subestimada por anos. Aos 29 anos, a analista de suporte enfrentou meses de dor intensa antes de chegar ao diagnóstico correto –osteonecrose na cabeça do fêmur. O quadro começou na lombar e evoluiu rapidamente, comprometendo movimentos básicos. Em sucessivas consultas, recebeu explicações que não acompanhavam a gravidade do quadro: dor muscular, hipótese psicossomática, ausência de indicação para investigação aprofundada. Mesmo com dor progressiva, precisou insistir para ser levada a sério. Em atendimentos de emergência, ouviu questionamentos diretos sobre a veracidade do que sentia, apesar da intensidade e da piora clínica. O diagnóstico só veio após uma sequência de exames e agravamento importante da condição. Até conseguir tratamento adequado, Luciana relata que, em cada ida ao pronto-socorro, precisava comprovar a condição por meio de laudos para receber medicação para dor. “Um médico insinuou que eu estava viciada em opioides, por isso ia no pronto socorro com frequência. A dor era tanta que nem morfina resolvia”, conta Luciana à reportagem. Evidência científica aponta padrão persistente Os dados que emergem da literatura científica ajudam a contextualizar experiências como a de Luciana. A revisão publicada na Medicina reuniu estudos observacionais, análises clínicas e relatos de pacientes e identificou que: mulheres recebem menos analgésicos em serviços de emergência, mesmo com dor equivalente; têm maior chance de ter a dor atribuída a ansiedade ou fatores psicológicos; enfrentam atraso no diagnóstico e tratamento em diferentes especialidades. Em procedimentos ginecológicos, a desigualdade se torna ainda mais evidente. Dados compilados na revisão indicam que apenas cerca de 30% dos médicos oferecem anestesia para inserção de DIU, embora aproximadamente 70% das pacientes relatem dor moderada a intensa. Em histeroscopias diagnósticas sem anestesia, a dor pode atingir níveis entre 7 e 9 em uma escala de 0 a 10. Além disso, estudos mostram que mulheres podem receber até 25% menos opioides do que homens após cirurgias semelhantes, reforçando um padrão consistente de subtratamento. Como a prática médica reproduz esse viés Na rotina clínica, especialistas reconhecem que o problema persiste, ainda que com avanços recentes. Ginecologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, Marina Andrés afirma que há evidências de que mulheres recebem menos medicação para dor e têm suas queixas desvalorizadas, inclusive em serviços de emergência. Segundo ela, a interpretação dos sintomas frequentemente recorre a explicações hormonais ou emocionais antes de uma investigação completa. A anestesiologista Cláudia Simões, coordenadora da residência de anestesia do Hospital Sírio-Libanês e vice-presidente da Sociedade de Anestesiologia do Estado de São Paulo (SAESP), explica que a dor é uma experiência subjetiva —influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais—, o que abre espaço para interferência de vieses inconscientes na avaliação clínica. Durante muito tempo, diz, consolidou-se a ideia de que mulheres seriam mais “emocionais” ou tenderiam a exagerar sintomas, percepção que ainda pode influenciar decisões médicas, mesmo de forma não intencional. No pós-operatório, a tentativa de padronizar a avaliação por meio de escalas de dor —como a numérica de 0 a 10— busca reduzir esse tipo de distorção. Ainda assim, a decisão sobre analgesia pode ser impactada pela interpretação da equipe, sobretudo quando protocolos não são rigidamente seguidos. Entre biologia, cultura e lacunas da ciência As diferenças entre homens e mulheres na experiência da dor existem, mas não explicam, sozinhas, a desigualdade no tratamento. Ginecologista da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), Marcelo Steiner destaca que há variações hormonais, imunológicas e neurológicas que influenciam a percepção da dor. Mulheres, por exemplo, têm maior prevalência de condições de dor crônica, como enxaqueca e fibromialgia. Ao mesmo tempo, ele ressalta que estudos já demonstraram que, em cenários clínicos equivalentes, a diferença no manejo pode ocorrer apenas pelo gênero do paciente —evidência de que fatores sociais e culturais também moldam a prática médica. Essa construção histórica é reforçada por uma tradição que naturalizou o sofrimento feminino. Coordenadora do Programa de Saúde do Adolescente da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, a ginecologista Albertina Duarte Takiuti conta que experiências como menstruação e parto foram, ao longo do tempo, tratadas como dores “esperadas”. Esse contexto contribui para uma banalização da dor. Segundo ela, quando uma mulher verbaliza sofrimento, isso geralmente indica que o limiar já foi ultrapassado, e a queixa precisa ser levada a sério. Procedimentos ‘toleráveis’ e dor subtratada A forma como certos procedimentos são classificados também influencia o cuidado. Na prática médica, há situações em que a dor feminina ainda é tratada como parte esperada do processo —e, por isso, menos priorizada no manejo clínico. A anestesiologista Gabriela Queiroz do Amaral, da Clínica Sartor e coordenadora da Expedição Cirúrgica da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), chama atenção para um dos exemplos mais evidentes: o acesso à analgesia no parto. Segundo ela, menos de 5% das mulheres no sistema público têm acesso à analgesia farmacológica durante o trabalho de parto, cenário associado a limitações estruturais, falta de profissionais e decisões de gestão. Em alguns contextos, a dor ainda é tratada como parte inevitável do processo. Um problema que ultrapassa a dor física A subestimação da dor não se limita ao desconforto imediato; ela pode ter consequências clínicas e comportamentais importantes. A revisão da Medicina aponta que o subtratamento está associado a atraso diagnóstico, pior evolução clínica e aumento do sofrimento psicológico. Além disso, experiências negativas podem afetar a relação das mulheres com o sistema de saúde. Parte das pacientes passa a evitar ou adiar atendimentos por receio de não ser levada a sério —um padrão já documentado em estudos populacionais analisados na revisão. No Brasil, o problema se insere em um contexto mais amplo. Editorial publicado na revista Femina, da Febrasgo, destaca que a invisibilidade de violências e sofrimentos femininos ainda atravessa a prática clínica e compromete oportunidades de cuidado, prevenção e proteção. O que pode mudar Especialistas apontam que reduzir a desigualdade no manejo da dor exige mudanças em múltiplos níveis. Entre as medidas discutidas estão: desenvolvimento de protocolos clínicos sensíveis a diferenças de gênero; treinamento de profissionais para reconhecimento de vieses implícitos; ampliação do acesso a analgesia, especialmente em contextos como o parto; valorização da escuta do paciente como elemento central da decisão clínica. Para Gabriela Amaral, a combinação entre critérios técnicos e compreensão individual da experiência de dor é essencial para um cuidado mais adequado. A dor, afirma, não pode ser tratada apenas como um dado fisiológico, mas como uma experiência que precisa ser reconhecida em sua singularidade.